Um texto que adorei, escrito por uma grande, grande amiga... Andreia Águas.
Vale mesmo a pena lê-lo.
Vale mesmo a pena lê-lo.
Ainda me lembro de te ter visto pela primeira vez do
outro lado do vidro do hospital, que ser tão pequenino.
Hoje, depois de alguns anos passados, pergunto-me por
ti… não é que alguma vez tenha deixado de pensar no teu crescimento mas ouve um
tempo em que tive de escolher.
Porque a vida é feita de escolhas e tanto que queria
fazer-te entender que a vida á muito que deixou de ser um conto de fadas.
Sento-me no chão do teu pequeno quarto que está
coberto por uma macia e simples carpete verde, verde como a cor dos teus olhos.
Faz um tempo que deixei de os ver, gostava de puder observa-los de novo, de
acreditar que vivos e atentos ainda permanecem.
Observo em redor o teu pequeno mundo, preenchido de
desenhos e fotografias, brinquedos espalhados pelo chão, e sobre o guarda – roupa
aberto, está uma manta de lã, tua.
Levanto-me e aproximo-me dessa manta que te aquecia
nas noites mais frias, noites em que nem sempre pude estar presente para te tapar
e envolver sobre os meus braços.
Agarro-a e aperto-a contra mim, aperto-a com nostalgia
e ao mesmo com dolência, o meu corpo estremece a cada suspiro como se a
realidade não quisesse ser encarada porque suportar dói demais.
Não quero ir embora, quero ficar mais um pouco aqui.
Respiro fundo e toco nas tuas peças de roupa; encontro
o teu pijama preferido e não resisto em senti-lo nas pontas dos meus dedos,
juntamente com ele está o “Pépinot”,
o meu agora teu, amiguinho de madeira, aquele que em tempos ajudei a fazer para
ti.
Esboço um sorriso ao ver-te numa fotografia, parecias
tão feliz dentro de água a nadar; estavas a tornar-te um ser forte e sem medo,
aprendeste a nadar e a aguentar as marés como também a suportar o frio da água de
uma maneira que ninguém na altura achava seres capaz, derivado ao teu tamanho e
á tua idade, ainda eras uma inocente criança.
Afasto-me, aproximo-me da janela na esperança de te
ver do outro lado da rua, correndo ansiosamente, mas a única coisa que vejo são
árvores a dançarem com o vento e nuvens a caminhar em direcção ao horizonte.
Ao longe há um campo preenchido por pinheiros e uma
lagoa; era ai que costumava levar-te, era ai que depois de um longo dia,
exaustivo, me dirigia levando-te comigo pela mão.
Vejo-te correndo pelos montes e vales, eras tão livre
…
Sempre quis fazer-te livre, sentir-te livre como um pássaro,
mas essa liberdade que te dava era para que pudesses crescer mais por ti mesmo,
que após cada queda soubesses levantar-te sozinho, não queria que te sentisses
só … pois a verdade é que eu estava mesmo ao teu lado para te segurar, só
queria que “crescesses” enquanto eu pudesse estar presente.
Dou por mim retrocedendo no tempo, recordando como
eras e como tudo tinha o seu sentido; como o teu cabelo era igual ao meu,
castanho ondulado …os teus espessos caracóis que decoravam o teu rosto oval
meio rosado como o meu, a tua maneira de andar, a maneira de vestir muito tua,
muito de ti e do teu ser pequenino; andavas sempre quase despido, porque
achavas que te sentirias mais leve sem pedaços de tecido a envolverem-te o
corpo.
Olhavas muitas vezes as folhas das árvores e ias com a
tua mãozinha pequenina delicadamente aos ramos apalpar os ninhos, subias às árvores,
e depois já quando ficavas mais cansado vinhas devagarinho até mim, caias no
meu colo e sobre os meus braços deixavas-te estar, os teus olhos redondos e
harmoniosos observavam-me, ficavas minutos a olhar-me.
Os teus dedinhos pequeninos entrelaçavam se no meu
cabelo, gostavas de os sentir na tua pele, sabia que de alguma maneira ainda
estavas muito apegado, nunca quis que te desapegasses totalmente, porque
precisava de ti em mim, de te sentir da mesma maneira que tu precisarias de me
sentir.
Dizem que uma criança não percebe o que lhe rodeia,
mas ver-te a olhar para mim quando me sentia enfadada ou confrontada com a
possibilidade de ir embora mais cedo, tu olhavas-me de uma maneira que não se
explica no momento e nem agora. Abraçavas-me com um simples sorriso inocente, e
chegavas perto; eu entendia o teu olhar e tu o meu que se exibia muitas vezes
distante, pensativo e perdido por coisas que hoje não mereciam tal atenção
porque tu eras mais importante do que qualquer outro facto ou acontecimento.
Olho o relógio e já se faz tarde, vejo que nada mudou
a não ser as horas e o tempo, dou passos leves até à porta entre soluços de
choro silenciosos, paro por uns segundos e olho em volta.
- “ Onde quer que
estejas, e para onde quer que te tenhas ido; Sinto-te olhando para mim, ainda
sinto os teus dedos no meu cabelo e no meu rosto.”
Pergunto-me tantas
vezes sob o manto negro da noite porque tivestes-te de subir até ao telhado
para agarrar aquele gato que tanto te fazia companhia nas noites mais frias
junto da janela.
Precisavas de SER TU o
tira-lo dali?
Estavas tão assustado
quanto ele.
Ouvi barulhos estranhos
no telhado e não hesitei, corri até ao quintal e quando te vi lá em cima o meu
corpo estremeceu, pôs as mãos á cabeça aflitivamente e subi as escadas, tentei
agarrar-te para que não pudesses esbarrar e cair, mas no momento em que me
aproximava de ti e esticava o meu corpo, o gato fugiu-te sob os pés e tu na
esperança de o agarrar sem pensar que poderias magoar-te, esbarras-te.
Deixei de me sentir e
assim me deixei ir de corpo e alma para te tentar segurar, já não importava se
caísse também, não importava o quanto perigoso poderia ser, eras tu que ali
estavas e dessa vez não te poderia deixar ir.
Lembro-me da tua
preocupação, não assustado por ti mas por mim.
Ouvia o teu chamamento
e á medida em que te tentava agarrar na mão, o teu olhar pediu-me para que
desistisse mas eu não podia, era como estar-te a entregar a um fim.
Consegui agarrar as
tuas mãos e puxei-te num desespero quase sufocante, dei-te a minha força e não
sei se tivemos algum anjo da guarda do nosso lado, mas a verdade é que te
consegui puxar e ter-te novamente nos meus braços.
Não sei explicar-te todo o turbilhão de
sentimentos mas respirei alívio num choro intenso sobre o teu ser. Ainda te ouvi
dizer: “mãe”.
Naquele momento soube
verdadeiramente que não tinha só um anjo da guarda, mas dois.
Talvez um dia
compreendas …
Para ti, filho.
Passado anos…
Há uma mãe que ama um filho, sabe
que mais tarde ou mais cedo terá de partir, e mesmo assim luta para estar
sempre presente, ela não quer saber se isso lhe vai afectar, não, ela só quer
vê-lo crescer. Ela não quis adormecer pelo cansaço, só quis acompanhar o seu
filho e dar-lhe a melhor educação, não quis deixa-lo sozinho naquele telhado e
não soube desistir mesmo estando perante uma desgraça. Ela esteve sempre lá,
mesmo quando aquela criança não a tinha presente.
Hoje, revejo-me nessa criança e essa criança, sou eu.
…Passado meses, daquele dia, a minha mãe piorou, a
verdade é que com o tempo descobri que ela estava doente, e que aquela ausência
e desaparecimento na minha vida tinha a ver com o facto de ela estar a ser
acompanha por médicos.
Agora, eu sei
que queria refazer a sua vida, para que um dia me pudesse ter definitivamente
em casa, junto de si.
Encontrei este pedaço de papel numa caixa guardada no
armário, ninguém o disse, fui eu que encontrei, talvez ela assim o preferisse,
que eu a descobrisse sozinho, porque cresci.
Andreia Águas \ 2012
